|
Divulgação
Desde 1991 existe uma lei no Brasil
que obriga as empresas com mais de 100 funcionários a contratarem
pessoas portadoras de deficiências. A lei prevê que uma
determinada quantidade de vagas, que varia de 2% a 5% do número
total de funcionários, deve ser reservada para pessoas deficientes.
Como toda medida afirmativa, a lei vem causando grande polêmica
e seu cumprimento ainda não é uma realidade para a maior
parte das empresas.
A questão da inclusão de deficientes no mercado de trabalho
é um desafio que pode ser visto pelas empresas como uma crise
ou como uma oportunidade incrível.
Muitos estudos mostram que promover a diversidade no mercado de trabalho
trás muitos benefícios para as empresas. Pessoas com formação
diferente, com visões diferentes sobre os mesmos problemas, com
origens, idades orientações políticas e religiosas
diferentes, reunidas em um mesmo ambiente proporcionam uma visão
mais holística e promovem a criatividade e a inovação.
Em um grupo heterogêneo, a troca de experiência e opiniões
enriquece todos os indivíduos. Por este motivo, as empresas devem
cultivar a diversidade como uma estratégia para ampliar a sua
visão global e integrada da sociedade em que atuam.
As barreiras para a inclusão de deficientes talvez estejam mais
em nossas cabeças do que em problemas efetivos. Como durante
muito tempo os deficientes estiveram segregados, a sociedade acabou
por reforçar seus preconceitos e nos acostumamos a mantê-los
sempre isolados e marginalizados.
As estimativas atuais indicam que existam no Brasil cerca de 24 milhões
de pessoas portadoras de deficiências. Como será que conseguimos
manter, por tanto tempo, tantas pessoas à margem da sociedade,
sem acesso a educação, a emprego e ao consumo?
A lei de cotas pretende minimizar este problema e ajudar a dar oportunidade
para que estas pessoas voltem a fazer parte da comunidade e, para isso,
o papel das empresas (como geradoras de empregos) será decisivo.
É claro que a empresa irá precisar fazer algumas adaptações
para receber estas pessoas. Em geral, são necessárias
algumas adaptações físicas: instalações
de rampas, de banheiros adaptados para cadeiras de rodas, de sinais
sonoros e instruções em Braille para deficientes visuais.
As maiores adaptações, no entanto, estão relacionadas
a questões comportamentais: a verdade é que não
sabemos lidar com as diferenças, não tivemos oportunidades,
na infância, de conviver com pessoas deficientes e, por tudo isso,
temos uma enorme resistência a esta idéia. Pequenas ações
de treinamento e sensibilização, no entanto, podem resolver
este problema.
Qualquer programa de inclusão de deficientes no mercado de trabalho
deve começar com a montagem do Comitê de Inclusão.
Este Comitê será formando por funcionários das áreas
de Recursos Humanos (DP, seleção, treinamento), segurança
e medicina do trabalho, jurídico e responsabilidade social e
tem como principal função coordenar as atividades nas
fases de planejamento e implantação do programa.
Uma vez que o programa esteja implantado, o Comitê poderá
ser dissolvido e as atividades passarão a fazer parte das rotinas
de trabalho dos departamentos envolvidos.
Do ponto de vista prático, o trabalho se inicia com o mapeamento
das funções. Esta atividade tem o objetivo de determinar
quais os tipos de deficiências que melhor irão se adequar
a cada uma das funções existentes na empresa e é
feita a partir do cruzamento das habilidades e conhecimentos específicos
necessários a cada cargo. A esta informação é
somada a avaliação da estrutura física, através
da qual vamos identificar as necessidades de adaptações
para garantir a segurança e a mobilidade de funcionários
com deficiências.
Este mapeamento é fundamental para garantir a qualidade na execução
da tarefa, a mobilidade e a segurança de funcionários
com deficiências.
A contratação de funcionários, neste caso, pode
precisar de uma atenção especial. O recrutamento precisa
ser feito de forma mais ativa e cuidadosa para que não sejam
cometidas injustiças.
A sensibilização de gestores e funcionários é
outro passo decisivo.
Pela dificuldade que temos em lidar com o novo e porque não estamos
habituados a lidar com deficientes e a pensar na inclusão destas
pessoas no mercado de trabalho, torna-se fundamental investir na sensibilização
de gestores e funcionários.
Os gestores serão os responsáveis pela abertura de vagas
para estas pessoas e pelo gerenciamento das dificuldades que aparecem
no dia-a-dia. Por isso, eles precisam estar convencidos dos benefícios
e importância deste programa para a empresa.
Já os funcionários precisam estar preparados para receber
os novos colegas. Se a empresa tem a intenção de contratar
deficientes auditivos, por exemplo, seria recomendável que os
funcionários pudessem fazer um curso de linguagem brasileira
de sinais (libras). Isso facilitará a comunicação
e contribuirá com a integração destas pessoas e
a melhoria do ambiente de trabalho.
O programa precisa ser avaliado e acompanhado permanentemente, par que
se corrijam as falhas o mais rapidamente possível.
Do ponto de vista de desempenho profissional, os funcionários
deficientes deverão ser avaliados da mesma maneira que qualquer
outro funcionário. O que será preciso avaliar permanentemente
é o programa de inclusão em si: devem ser revistas periodicamente
as fontes de recrutamento, os métodos de seleção
e treinamento e as ações de sensibilização
e integração, visando melhorar continuamente o programa.
Depois de alguns anos envolvida com processos de inclusão de
deficientes no mercado de trabalho, o que percebo é que, vencida
a dificuldade inicial, a maioria das empresas percebe que esta é
uma oportunidade maravilhosa e que deveria ter iniciado este processo
há muito tempo!
Andrea Goldschmidt é administradora de empresas e consultora
da APOENA Social.
|